“A direção é mais importante do que a velocidade”
Se alguém pode testemunhar sobre esses dois, esse alguém sou
eu. Conheço-os de cabo a rabo, literalmente. Me arrisco a dizer que fui um dos
motivos responsáveis pela conquista. Sou um ícone, tenho história, e cheiro de
vida. O adjetivo para o meu cheiro talvez não seja "bom", nem
"gostoso", ou algo assim. Tenho cheiro de vida bem vivida, e ponto.
Não sabia que Ela existia. Nenhuma novidade, Ele não costuma me comunicar as
coisas. As vezes me pede para colaborar, não colocar ninguém para fora. Mas,
quando eu sei que a coisa não é boa, mando embora sem piedade. Me basta uma
curva, um trovão, uma oportunidade. Sou importante, posso decidir quando lhe
falta lucidez. Sou seu amigo, companheiro, conheço seus segredos. Estava lá nos
acontecimentos mais importantes, abriguei seus melhores amigos e a graça de
todas as histórias. Ele é meu, e não ao contrário. Pareço um fusca, mas sou um
lápis.
Então, numa quarta-feira ensolarada [não precisava do sol,
era bonito mesmo se não houvesse luz], fui surpreendido com o horário de
despertar. "Vamos amigos, vamos nos divertir!", "Mas ainda é tão
cedo... é tarde, mas é cedo, para onde vamos hoje?", "Para um lugar
em que não existem expectativas". Ele repetiu para Ela essa história de
falta de expectativa centena de vezes. Quem Ele pretendia enganar? Uma pessoa
alimentada por pessoas não suporta a existência sem expectativas. Em baixo das
suas unhas não existem bactérias, existem expectativas. Boas, más, Ele nunca me
contou. Ele nunca contou para Ela. Só o que sei é que enquanto eu
verdadeiramente não tinha expectativa nenhuma, só curiosidade, senti o calor
das suas pernas, o peso do seu corpo, o movimento do seu quadril, o cheiro da
sua pele, pela primeira vez. "UAU! Bela bunda!", pensei. Bem nutrida,
oponente, ocupando toda parte reservada para ela - a bunda. Entrou, se
encaixou, sorriu. Não sei se sorriu, imagino que sim, estava concentrado demais
no nosso contato. Ela podia grudar em mim, eu seria feliz. Desejei poder tocar
músicas melhores, talvez uma que dissesse o quanto sua pele é de leite
condensado, seu cabelo dourado com marrom, seu corpo de violão. Mas, minha
origem limita a trilha sonora, portanto eles escolheram conversar. O mundo
ficou em silêncio, e eu procurei ser sonoramente invisível. Sabe quando existe
muito para ser dito, mas ainda não chegou a hora? Pois é, fiquei com vontade de
estapear as costas dele "Seja homem!". Certamente Ela não ficaria ali
para sempre, objetos não tem sorte na vida...
Ela entrou. Saiu. Entrou. Saiu. Me machucou algumas vezes,
demoramos para acertar alguns detalhes físicos. Mas, cada vez que ouvia sua
risada, abrigava a sua bunda, automaticamente estava perdoada. Até que um dia
Ela não voltou mais. Desconfiei quando também carreguei sua mala. Por que Ele a
deixou partir? Quem iria ocupar o seu lugar? Eu não tinha resposta, Ele não
conversava comigo. Só havia uma solução: começar uma guerra. Não importava
quantas vezes ele trocasse os meus pneus, eu iria sabotá-lo. "Não quero
mais me movimentar e quem manda aqui sou eu!" pensei. E se colocasse outra
em seu lugar, jurei enforcá-la com o cinto que está ali para garantir uma suposta segurança. Nenhuma outra estará segura no meu interior. Em mim, ninguém mais terá vez.
Sentia falta da graça que Ela nos trazia. Até que em um dia Ela voltou. E depois
saiu. E depois entrou, de novo. E saiu. E entrou. E estamos assim agora, sem
nenhum acordo, nos encontrando esporadicamente. Essa falta de regularidade me
mata, e as vezes faço birra para puni-lo. Fico animado quando lembro que Ela
existe para nós, e aguardo ansioso o dia em que Ela ficará para sempre. Esse
dia vai chegar, não vai? Me diga que sim e que não vai demorar. Mais eficaz que
combustível... essa menina.
Tudo é muito legal, mas a realidade me cansa, não favorece
minha beleza. Eu preferia que fosse um filme, inverossímil, um lugar onde os
fuscas tivessem voz. Eu preferia que tudo acontecesse exatamente do jeito que
escrevo. Ontem me mandaram parar de brincar de Deus, de querer controlar todas
as coisas. Eu não posso. Não consigo. Inacreditavelmente, nunca tive controle
sobre a história que esse lápis, esse fusca, esse desejo, escreveu no último
mês. As coisas aconteceram, e cresceram, e se multiplicaram, e ficaram
gigantes, e já sou pequena demais para abrigá-las. Porque eu, Deus, achei que
estava administrando a velocidade: um passo de cada vez, sem ansiedade, um
pouquinho por dia. Mentira! Nossos desejos, sentimentos, impulsos, são
acelerados. Somos assim e finalmente somos um Nós assim. E não vou reler quando
terminar, quero que seja tão espontâneo quanto todas as outras coisas
importantes. Quero apelar sem ter vergonha de o fazer. Ninguém precisa se
envergonhar de coisas tão boas, tão raras, tão tão TÃO. Tenho presentes:
minha saudade, meu amor. Parece pouco, mas é tudo o que posso oferecer agora.
Nessa velocidade... talvez um dia ofereça a minha vida. E a palavra do resto do
mundo perdeu a força, porque as coisas que vejo nos seus olhos são como a
gasolina para o seu fusca.
Só posso dizer isso uma vez ao dia, ou uma vez na semana
[ainda não compreendi a frequência que você determinou]. Só posso dizer o que
sinto por sentir tão imensamente, embora não seja sua exclusividade. O meu amor
é seu, mas também é dele. Porque enquanto você estiver no meu coração, espero
também tê-lo na minha garagem... Eu te amo.
