terça-feira, 11 de setembro de 2012

É grande... mas cabe em um fusca.


“A direção é mais importante do que a velocidade”
Se alguém pode testemunhar sobre esses dois, esse alguém sou eu. Conheço-os de cabo a rabo, literalmente. Me arrisco a dizer que fui um dos motivos responsáveis pela conquista. Sou um ícone, tenho história, e cheiro de vida. O adjetivo para o meu cheiro talvez não seja "bom", nem "gostoso", ou algo assim. Tenho cheiro de vida bem vivida, e ponto. Não sabia que Ela existia. Nenhuma novidade, Ele não costuma me comunicar as coisas. As vezes me pede para colaborar, não colocar ninguém para fora. Mas, quando eu sei que a coisa não é boa, mando embora sem piedade. Me basta uma curva, um trovão, uma oportunidade. Sou importante, posso decidir quando lhe falta lucidez. Sou seu amigo, companheiro, conheço seus segredos. Estava lá nos acontecimentos mais importantes, abriguei seus melhores amigos e a graça de todas as histórias. Ele é meu, e não ao contrário. Pareço um fusca, mas sou um lápis.

Então, numa quarta-feira ensolarada [não precisava do sol, era bonito mesmo se não houvesse luz], fui surpreendido com o horário de despertar. "Vamos amigos, vamos nos divertir!", "Mas ainda é tão cedo... é tarde, mas é cedo, para onde vamos hoje?", "Para um lugar em que não existem expectativas". Ele repetiu para Ela essa história de falta de expectativa centena de vezes. Quem Ele pretendia enganar? Uma pessoa alimentada por pessoas não suporta a existência sem expectativas. Em baixo das suas unhas não existem bactérias, existem expectativas. Boas, más, Ele nunca me contou. Ele nunca contou para Ela. Só o que sei é que enquanto eu verdadeiramente não tinha expectativa nenhuma, só curiosidade, senti o calor das suas pernas, o peso do seu corpo, o movimento do seu quadril, o cheiro da sua pele, pela primeira vez. "UAU! Bela bunda!", pensei. Bem nutrida, oponente, ocupando toda parte reservada para ela - a bunda. Entrou, se encaixou, sorriu. Não sei se sorriu, imagino que sim, estava concentrado demais no nosso contato. Ela podia grudar em mim, eu seria feliz. Desejei poder tocar músicas melhores, talvez uma que dissesse o quanto sua pele é de leite condensado, seu cabelo dourado com marrom, seu corpo de violão. Mas, minha origem limita a trilha sonora, portanto eles escolheram conversar. O mundo ficou em silêncio, e eu procurei ser sonoramente invisível. Sabe quando existe muito para ser dito, mas ainda não chegou a hora? Pois é, fiquei com vontade de estapear as costas dele "Seja homem!". Certamente Ela não ficaria ali para sempre, objetos não tem sorte na vida...
Ela entrou. Saiu. Entrou. Saiu. Me machucou algumas vezes, demoramos para acertar alguns detalhes físicos. Mas, cada vez que ouvia sua risada, abrigava a sua bunda, automaticamente estava perdoada. Até que um dia Ela não voltou mais. Desconfiei quando também carreguei sua mala. Por que Ele a deixou partir? Quem iria ocupar o seu lugar? Eu não tinha resposta, Ele não conversava comigo. Só havia uma solução: começar uma guerra. Não importava quantas vezes ele trocasse os meus pneus, eu iria sabotá-lo. "Não quero mais me movimentar e quem manda aqui sou eu!" pensei. E se colocasse outra em seu lugar, jurei enforcá-la com o cinto que está ali para garantir uma suposta segurança. Nenhuma outra estará segura no meu interior. Em mim, ninguém mais terá vez. Sentia falta da graça que Ela nos trazia. Até que em um dia Ela voltou. E depois saiu. E depois entrou, de novo. E saiu. E entrou. E estamos assim agora, sem nenhum acordo, nos encontrando esporadicamente. Essa falta de regularidade me mata, e as vezes faço birra para puni-lo. Fico animado quando lembro que Ela existe para nós, e aguardo ansioso o dia em que Ela ficará para sempre. Esse dia vai chegar, não vai? Me diga que sim e que não vai demorar. Mais eficaz que combustível... essa menina.
Tudo é muito legal, mas a realidade me cansa, não favorece minha beleza. Eu preferia que fosse um filme, inverossímil, um lugar onde os fuscas tivessem voz. Eu preferia que tudo acontecesse exatamente do jeito que escrevo. Ontem me mandaram parar de brincar de Deus, de querer controlar todas as coisas. Eu não posso. Não consigo. Inacreditavelmente, nunca tive controle sobre a história que esse lápis, esse fusca, esse desejo, escreveu no último mês. As coisas aconteceram, e cresceram, e se multiplicaram, e ficaram gigantes, e já sou pequena demais para abrigá-las. Porque eu, Deus, achei que estava administrando a velocidade: um passo de cada vez, sem ansiedade, um pouquinho por dia. Mentira! Nossos desejos, sentimentos, impulsos, são acelerados. Somos assim e finalmente somos um Nós assim. E não vou reler quando terminar, quero que seja tão espontâneo quanto todas as outras coisas importantes. Quero apelar sem ter vergonha de o fazer. Ninguém precisa se envergonhar de coisas tão boas, tão raras, tão tão TÃO. Tenho presentes: minha saudade, meu amor. Parece pouco, mas é tudo o que posso oferecer agora. Nessa velocidade... talvez um dia ofereça a minha vida. E a palavra do resto do mundo perdeu a força, porque as coisas que vejo nos seus olhos são como a gasolina para o seu fusca.

Só posso dizer isso uma vez ao dia, ou uma vez na semana [ainda não compreendi a frequência que você determinou]. Só posso dizer o que sinto por sentir tão imensamente, embora não seja sua exclusividade. O meu amor é seu, mas também é dele. Porque enquanto você estiver no meu coração, espero também tê-lo na minha garagem... Eu te amo.