terça-feira, 31 de julho de 2012

Não volte para o ninho, meu passarinho!


Abriu a porta número 24. Era domingo, ou quarta-feira. Não importa. O nome que dão aos dias são banais. Dar nome as coisas, enumerá-las, grandes banalidades. Colocou o pé direito na primeira tábua do chão. Dizem que dá sorte. Pisou tão firme que naquele instante evitou qualquer azar futuro. Pé direito, coração dançante, o planejado piso de madeira escura. Subiu o olhar vagarozamente. Sentiu o cheiro de lar preencher as vias-respiratórias. Era exatamente igual, por dentro e por fora... Só amor. 

Os minutos passavam. Continuou parada no mesmo X vermelho imaginário. A marca de "aqui é o meu lugar" e a fita para ser desenlaçada. Ele prometeu que haveria fogos de artifício. Tirou os olhos do chão e só admirou as cortinas que lembravam sorvete de baunilha nas quatro vidraças sujas, um sofá com jeito de abraço, o tapete e a banheira. Os livros, os filmes, os discos estavam dispostos no canto esquerto, enfeitando a escrivaninha e a vitrola. Algumas fotos penduradas para matar as saudades de ontem. No canto direito a cama deles, bagunçada, usada. Abriram mão das paredes na construção daquele ninho: voavam como passarinho, nada os dividia, nada os separadava. Um mundo inteiro em alguns metros quadrados. O único mundo que importava existir. 

Caminhou alguns passos e fechou a porta. Piscou, piscou, piscou. Pés descalços. Acendeu a luz do abajour. Ouviu o barulho familiar do gato carente, que se aproximava preguiçoso e se enroscava no seu tornozelo. Agora que estava do lado de dentro não podia voltar. Estava presa. 

Não volte pra casa meu amor que aqui é triste
Não volte pro mundo onde você não existe
Não volte mais
Não olhe pra trás
Mas não se esqueça de mim não
Não me lembre que o sol nasce no leste e no oeste morre depois
O que acontece é triste demais pra quem não sabe viver pra quem não sabe amar

Não volte pra casa meu amor que a casa é triste
Desde que você partiu aqui nada existe
Então não adianta voltar
Acabou o seu tempo acabou o seu mar acabou seu dia
Acabou, acabou

Não volte pra casa meu amor que aqui é triste
Vá voar com o vento que só lá você existe
Não esqueça que não sei mais nada, nada de você
Não me espere porque eu não volto logo
Não nade porque eu me afogo
Não voe porque eu caio do ar
Não sei flutuar nas nuvens como você
Você não vai entender que eu não sei voar
Eu não sei mais nada

Um comentário:

  1. Eu acredito que essas palavras são de uma sensibilidade,tão doce,tão meiga.Devaneio em seus sonhos...Minha menina-mulher!!!

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